BRINCAR: uma experiência de alegria e liberdade

Se a criança que você foi um dia viesse te visitar, será que ela se reconheceria?

Trago essa provocação que inicia a música “A criança que eu fui um dia”, da Banda Reverb, para iniciarmos a nossa conversa. No decorrer da música, há a seguinte reflexão: se pudéssemos nos encontrar com a aquela criança que fomos, será que ela teria orgulho do adulto que nos tornamos? Será que nos reconheceríamos? Será que, ao longo do caminho, desistimos de sorrir? Será que a alegria não se encaixa mais em nossas vidas?

Esse tipo de exercício sugerido pela música é muito comum para mim. E quem convive comigo sabe disso, porque faço essa provocação aos que estão a minha volta o tempo todo. Tenho um compromisso com ela, com a minha criança, de não deixar a alegria se esvair.

Ela, a minha Rosinha criança, nasceu em uma favela do Rio de Janeiro. Até hoje eu escuto dos amigos que saí da favela, mas que a favela não saiu de mim. Sempre recebi isso como um elogio. Fui a caçula de três irmãos homens. Éramos uma “escadinha”, como diziam na época. Tínhamos (e ainda temos) as idades muito próximas. Brincávamos na rua, na pracinha, no quintal (que parecia gigante), apesar dos riscos de um lugar tão violento.

Aos 10 anos, vim morar com meu pai, em Brasília. Apesar de não estar mais na favela, continuava brincando pela rua. Era a campeã do pique-bandeirinha! Entrar em casa, só mesmo para dormir! Brinquei muito... até que um dia, a rua sentiu falta de mim. A troquei pelo trabalho.

Aos 16 anos, comecei como estagiária em uma escola. Troquei as brincadeiras lá da minha rua pelas brincadeiras com as crianças pequenas da escola. Mas continuava moleca. Jogava bola com eles, fazia bolo de areia, me escondia, me fantasiava. Aos poucos fui percebendo essa seria a minha melhor estratégia de conexão com os pequenos.

Logo depois, me tornei monitora do berçário. E tive também a honra de aprender a brincar com os bebês. Depois, tornei-me professora da Educação Infantil e... lá se vão 25 anos.

Lembro-me de uma vez que eu tentei convencer minhas colegas de trabalho a nos fantasiarmos com os personagens do Sítio do Picapau Amarelo para comemorarmos o Dia Nacional do Livro Infantil. Bom... eu achei que todas haviam topado. Mas, no dia seguinte... “Festa estranha com gente esquisita.” Só apareceu a Emília... que no caso era eu mesma!

Minhas crianças piraram. Algumas não me reconheciam. As crianças das salas vizinhas ficaram igualmente eufóricas. Foi uma farra danada!

Quase no final da manhã, fui ao banheiro da sala dos professores e, sem saber que eu estava lá dentro, duas professoras conversavam lá fora animadamente:


- Ué? Você não veio de fantasia?

E a outra colega respondeu:

- Eu não! Sou professora! Não sou palhaça!


Foi aí que eu comecei a refletir bastante sobre ser professora e também sobre ser palhaça. Claro que não só por este motivo, mas por esse e mais alguns, resolvi me lançar em novos desafios, respirar novos ares, viver novas experiências. Quem sabe ser palhaça em outro lugar?

E foi nessa virada, nesse novo começo, nessa nova escola, que eu percebi o quanto eu tinha passado meus primeiros 16 anos profissionais apenas “apertando parafusos”. Eu estava executando planejamentos copiados dos anos anteriores. Permanecia fazendo escolhas pelas crianças.

Decidíamos, lá na semana pedagógica de janeiro, que temas e conteúdos trabalhar com as crianças durante o ano inteiro. Era bem fácil. Primeiro, listávamos todas as datas comemorativas, e nas semanas sem data específica a ser comemorada, inventávamos temas interessantes, (Para quem?) tais como: formas geométricas, primavera, animais de estimação, dinossauros e por aí vai...

E no ano seguinte... tudo do mesmo de novo!

E por que será que esta nova escola me proporcionou uma nova maneira olhar? Simplesmente porque a escola sabia que só através do estudo e das formações dos professores é que conseguiríamos parar de apertar aqueles parafusos. Essa escola me abriu portas e janelas. Fez renascer em mim algo que já estava adormecido: a sede pelo conhecimento e, consequentemente, o empoderamento que ele nos traz.

A escola estava passando por uma reestruturação curricular. Tinha uma nova (e linda) diretriz para a educação infantil... totalmente inspirada em Reggio Emilia e no olhar respeitoso para as infâncias. Comecei a devorar os livros e, confesso que em alguns momentos, cheguei a pensar que o tudo o que eu lia parecia muito utópico. Cheguei a ouvir de uma outra colega na época:

- Você também está na modinha de Reggio?

E foi aí que eu me senti desafiada outra vez... Não a trocar de escola de novo, claro! Mas me senti desafiada a confrontar o que eu lia sobre Reggio com tudo o que eu já havia vivenciado com as crianças enquanto educadora.

É preciso contextualizar o que estou falando. Afinal, o que tudo isso tem a ver com o brincar? Reggio Emilia é um município italiano de, aproximadamente, 173 mil habitantes. Um lugar que exala não só educação, mas uma educação que eu acredito, uma educação que respeita as crianças, que percebe sua potência, sua força. Um lugar que também estimula os educadores e as educadoras a serem eternos pesquisadores. E, principalmente, um lugar de uma generosidade sem tamanho, que partilha suas pesquisas, seus percursos e suas descobertas.

A Educação Infantil de Reggio Emilia foi considerada uma das melhores do mundo em 1995, quando saiu na capa da revista americana, Newsweek. Mas sua história começou mesmo no pós guerra, 50 anos antes, quando a cidade estava destruída e o jovem pedagogo Loris Malaguzzi, junto com as mães da região, construíram com as próprias mãos escolas para as crianças pequenas.

Malaguzzi foi o grande idealizador da abordagem de Reggio Emilia e dedicou toda a sua vida em prol da educação. Mas ele não inventou nada do zero. Ele bebeu da fonte de muita gente sabida, como: John Dewey, Maria Montessori, Vigotski, Freinet, Piaget, Brunner, Gardner, com a teoria das múltiplas inteligências. Ele fez nascer em Reggio não só uma educação Infantil respeitosa e cheia de sentido para as crianças, mas também um local que exala, até hoje, muito estudo e troca.

Posso passar horas falando de Reggio Emilia e de seus encantos. Mas preciso retomar o tema do brincar. A verdade é que falar de Reggio endossa a minha crença e as minhas convicções sobre o brincar. Porque nesse diálogo com Reggio, há um respeito muito grande pelas crianças e pelas suas especificidades.

Vale ressaltar que, o que acontece em Reggio, não pode ser imitado ou copiado. Há um contexto histórico, cultural, social e político diferente do nosso. Por isso, Reggio é inspiração e não um modelo a ser seguido. Na introdução do livro “Diálogos com Reggio Emilia”, de Carla Rinaldi, há uma trecho que gosto muito logo na introdução... de Gunilla Dahlberg Peter Moss que diz assim:

“Nós também temos necessidade de mais Reggios, não no sentido de meras duplicações, mas de outras comunidades que se preparem para embarcar em projetos culturais para a infância, a fim de combinar pensamento e ação utópicos, de sonhar com o futuro, de esperar por um mundo melhor."

Quanto mais eu estudava, mais o mundo se abria para mim. Mais segura eu ficava. E melhor ainda era a minha relação com as crianças. Eu descobri que era possível envolvê-las em todo o processo. Elas poderiam decidir o que investigar, poderiam escolher suas brincadeiras. Permitir que elas fizessem parte de tudo isso era simplesmente reconhecer a potência e a capacidade delas. Era deixá-las exercer o seu protagonismo de fato.

Respeitar a infância é respeitar suas subjetividades, suas especificidades. É reconhecer que o brincar para ela, é tão importante quanto respirar. Que esse momento, o do brincar, pode ser o mais importante de todos. Que ele oportuniza a imaginação, a criatividade, as interações com seus pares, com os adultos, com o ambiente e até com ela mesma.

A gente começa a perceber que essa criança pequena precisa ser vista como ela é. Que ela não precisa ser preparada para nada, além de ser ela mesma. E que há tanto aprendizado no brincar... Aliás, o brincar é dos seus direitos, garantido nas Diretrizes e na BNCC... E essa é uma outra conversa...

Apesar de, como especialistas, termos total clareza sobre a importância do brincar na vida das crianças pequenas, temos ainda um longo caminho pela frente: o de conscientizar as pessoas grandes da sua real necessidade. A família, talvez, seja o nosso maior desafio.

Conto um último exemplo para fechar...

Assim que eu assumi a coordenação do turno integral dessa mesma escola que me abriu a janela e os olhos, tive uma situação delicada para resolver. Logo na primeira semana, o estagiário de Educação Física veio, esbaforido, na minha sala. Ele e o professor de Futsal não sabiam o que fazer numa naquela situação.

O que tinha acontecido? Algo que acontecia frequentemente, mas que, para mim, era uma novidade. Uma criança de 3 aninhos estava dormindo, de babar, no meio da quadra... durante a partida de futebol.

Fui até lá. Peguei ele no colo e deixei o bichinho dormir até cansar (ou descansar). Enquanto ele dormia, muitas coisas passaram pela minha cabeça. Percebi que no contraturno, as crianças poderiam fazer muitas atividades físicas em um único dia. Elas estavam exaustas. E eu precisava fazer alguma coisa.

Então, resolvi conversar som a minha diretora, que sempre foi muito parceira. Quebramos a cabeça para elaborarmos soluções e estratégias cabíveis. Só tínhamos uma certeza: do jeito que estava, não poderia mais ficar. Então, fizemos uma alteração na grade horária e acrescentamos o brincar como atividade obrigatória.

Infelizmente, tive que maquiar esse nome na grade horária, o BRINCAR. Dei um nome florido, apesar de não gostar muito dele. O chamei de “Vivências Lúdicas”. Lembro da minha diretora perguntando:

- Rosinha, você tem certeza que quer fazer isso?

Respondi que sim, e ela disse:

- Beleza! Estamos juntas! Mas agora vamos nos preparar para a guerra!


Marcamos uma reunião com as famílias. Começamos rezando o terço, expusemos os nossos sentimentos, embasamos teoricamente a nossa fala. Confesso que a maioria das famílias entendeu bem. Os pais sabiam, lá no fundo, o quanto seus filhos estavam cansados. Mas... tivemos também aquelas famílias que quiseram nos engolir vivas. “Como assim?” “Não vou pagar para o meu filho brincar!” “Se for para o meu filho brincar, ele brinca em casa!” E por aí vai...

Alguns acabaram optando em levar seus filhos mais tarde ou retirá-los mais cedo da escola. Assim, não precisariam pagar por esse momento de brincadeira. Nunca teve um viés financeiro em nosso desejo de mudança. Existia mesmo um enorme desejo em ser coerente com o que acreditávamos. E um desejo ainda maior de respeitar aquelas crianças e a pouca infância que ainda lhes restava.

Nem preciso dizer o que aconteceu, né?! As crianças, simplesmente, amaram o momento do brincar. Os contratos foram refeitos. E o BRINCAR foi recebendo, pouco a pouco, o seu devido valor.

Finalizo, agora de verdade, com a fala do Rubem Alves, que eu amo:

“Coitados dos adultos! Arrancaram seus olhos vagabundos e brincalhões de criança e os substituíram por olhos ferramentas de trabalho.”

77 visualizações

©2020 por NADA SEM ALEGRIA!. Orgulhosamente criado com Wix.com