CATANDO OS VESTÍGIOS DO CAMINHO E DESVENDANDO A TRAVESSIA

“O real não está na saída e nem na chegada: Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.

Guimarães Rosa


Falar de documentação pedagógica é falar do processo, do caminhar, da construção, da travessia... A primeira grande travessia é a do reconhecimento, por parte dos educadores e das educadoras, da documentação pedagógica como uma excelente oportunidade, e não como mais um fardo ou mais uma demanda de trabalho.


“Documentação é, em primeiro lugar e acima de tudo, uma ferramenta educacional, mas também uma grande oportunidade.”

Carla Rinaldi


Lembro-me da primeira vez que conversei com a equipe sobre a necessidade de estudarmos mais a fundo este tema. Era novidade para 100% do grupo. Era como falar grego. As professoras estavam acostumadas com o ritual de selecionar as fotos anuais de cada criança e entregar para a família em forma de CD. Fotos avulsas, apenas registros. E a maioria dessas fotos estampavam aquele clássico sorriso Colgate, ou seja, fotos posadas e direcionadas pelas professoras. Montar esses CD´s era o mais perto que elas haviam chegado da documentação pedagógica.


Entendi que o caminho era um só: o do estudo. Foram várias formações, estudos de textos e reflexões sobre o tema. Precisava que elas compreendessem os porquês da documentação. Senão, realmente, essa ferramenta seria vista como mais uma tarefa trabalhosa e sem sentido a ser cumprida.

Conversamos sobre o surgimento das documentações pedagógicas em Reggio Emilia, na Itália, quando Loris Malaguzzi sugeriu aos professores que elaborassem uma espécie de diário para anotações e reflexões futuras. A ideia era que eles recolhessem a essência da vida na escola. Com o tempo esse diário foi tomando corpo e atendendo 3 funções distintas: política, de apoio e sistematização e de construção de material pedagógico para reflexão.

Documentar, na experiência educativa de Reggio, transformou-se um dos princípios fundamentais, pois torna visível os processos de aprendizagem das crianças e a forma como elas constroem seu conhecimento. Pronta, a documentação tem o poder de comunicar o não visto, de dar voz às crianças e de demonstrar as intencionalidades do educador.


“A documentação, para Loris Malaguzzi, é, ao mesmo tempo, a estratégia ética para dar voz à criança, à infância e para desenvolver uma imagem pública para a cidade sobre o que a cidade estava investindo na escola. Também é uma estratégia estética, porque as documentações apresentadas têm alguns critérios de qualidade estética muito importantes. E, além disso, é uma estratégia política, porque oferece à própria cidade uma imagem internacional dela mesma.”

Alfredo Hoyuelos


Com o tempo, as professoras começaram a se arriscar. Umas mal sabiam usar o computador. Juntas, aprendemos a escanear desenhos, a compor fotos e imagens, cuidando dos espaçamentos entre elas. Fomos trocando também nossa lente interna para a fotografia. As fotos posadas já não cabiam mais. Elas não mostravam o processo, não permitiam uma continuidade.

Mas a maior dificuldade encontrada, certamente, foi a produção escrita. Percebi que elas não tinham segurança em produzir textos autorais. Os textos acabavam ficando desconexos. Não traduziam a nossa realidade. Não faziam sentido.

Mesmo assim, comecei a expor pela escola algumas documentações impressas. Escolhi um lugar estratégico, onde todas as famílias precisavam passar para deixarem as crianças em suas salas. Por mais que não estivessem aquela “Coca-Cola toda”, eu precisava que eles sentissem o impacto dessa ferramenta aos olhos das famílias e da comunidade escolar. E essa resposta veio muito rápida.

No primeiro dia, era possível ver pais, mães, tios e avós se espremendo para fazerem a leitura das falas das crianças, observarem as fotos e os desenhos expostos ali. Nosso melhor feedback, sem dúvida, foram os sorrisos estampados nos rostos dos adultos e as palavras de incentivo às crianças:

- Nossa, filha! Você falou isso? Seu desenho ficou lindo!

As famílias sorriam de lá, crianças e professoras sorriam de cá. As crianças estavam visivelmente nutridas de reconhecimento. Todos saíram ganhando.

Lembro também de uma outra documentação que expusemos no mesmo local. Era sobre algum fato grandioso ocorrido no Brasil. As crianças estavam tão eufóricas que logo a professora teve a ideia de gravar suas falas.

No dia seguinte, lá estavam os adultos se espremendo no mesmo local. Sorrisos e elogios foram distribuídos novamente. Uma família, que sempre chegava atrasada, observou a documentação exposta e perguntou à educadora o porquê do seu filho não ter participado. A professora explicou prontamente que aquele material havia surgido na roda de conversa, que acontecia no início das aulas, mas que aquela criança sempre perdia devido aos atrasos. A família passou, então, a chegar mais cedo e a professora percebeu, naquele momento, o quanto a documentação havia tocado aquela família.

Claro que as falas, os assuntos e ideias para as documentações não surgem apenas nas rodas de conversa. Mas essa situação foi importante para mostrar para a professora o poder da documentação e como todos os atores envolvidos eram beneficiados com ela.

Quando percebi, algo tinha mudado na equipe. Parecia que uma luz havia se acendido dentro das professoras. Elas enxergavam o sentido de tudo aquilo com mais clareza. E, a partir daquele momento, começaram a produzir algo mais robusto, mais elaborado e mais autoral.

Uma das professoras, a Selma, passou a levar as famílias praticamente pela mão até o local da documentação. Antes de mostrá-la, discorria sobre os sentidos daquela ferramenta e porque a considerávamos tão importante em nossa prática. Em sua fala ela acrescentou muito do que havíamos estudado lá no começo. Dizia, e diz até hoje, que a documentação tem o poder de tornar visível o que acontece na escola, que funciona como a memória do grupo, que oportuniza uma revisita das crianças às suas falas e pensamentos, que mostra o percurso formativo das crianças, a construção do conhecimento, o confronto de ideias e de pontos de vistas, ou seja, a travessia.

Os pais saíam suspirando alto e compreendendo melhor a potência daquele material. As professoras perceberam, então, uma grande oportunidade de qualificarem seus trabalhos. E tomaram gosto.

Por isso, é tão importante entendermos o sentido daquilo que nos propomos a fazer. Senão, corremos o risco de fazer por fazer. E o que se faz por fazer não salta aos olhos, não fala com o coração. E, a partir daí, seguimos para uma nova travessia: a da apropriação, de repertório e de embasamento teórico sobre a documentação. Era preciso compreender melhor o que era e o que não era documentar. Ter ciência de que tipo de documentação era preciso elaborar. Por quê? Para quem?


“O que decidimos observar está ligado à utilidade que queremos extrair de uma documentação concreta e, também, ao como a faremos.”

Projetos da Educação Infantil


Então, começamos a planejar melhor a documentação e a diferenciar suas finalidades. Entendemos que existiam aquelas que relatavam fatos ocorridos, cotidianidade ou eventos. Outras que pretendiam externar a identidade da escola e seus princípios. Aquelas que coletavam todos os rastros dos projetos. O importante era dar sentido ao que estávamos fazendo.


“Chega um dia em que descobrimos, com os olhos emocionados e expressão de surpresa, que as crianças são incansáveis produtoras de maravilhas. É aí que descobrimos a necessidade, ou mesmo, o dever de tornar público o que nos acontece.”

Maritxell Bonas


E no meio desse processo de construção de uma documentação pedagógica que tivesse a nossa cara, tive o privilégio de conhecer Reggio Emilia. Eu já tinha visto documentações incríveis em outras escolas inspiradas em Reggio, como: Colégio Aletheia, na Argentina; Casa Amarilla e o Colégio Aleph, no Peru; Jardim Fabulinus, também na Argentina e em alguns espaços pelo Brasil, como a Casa da Infância, em Salvador e o Ateliê Carambola, em São Paulo.

Mas Reggio é mesmo de tirar o fôlego. Talvez porque lá as documentações transcendem as escolas, esparram por toda a cidade. Há um cuidado minucioso com a estética. Fotos que falam por si só, montagens perfeitas. É mesmo de arrepiar.

Lembro-me de ter ficado boquiaberta a primeira vez que fui caminhando do hotel até o Centro Internacional Loris Malaguzzi, onde teríamos as palestras e os cursos. Passávamos por um túnel, debaixo da estação de trem. Quando percebi, havia uma documentação incrível de um projeto sobre as bicicletas, principal meio de transporte da cidade, nas paredes do túnel. A mesma documentação era vendida, em forma de livreto, no Centro Internacional. Claro que eu a comprei.

Há uma força muito grande esse reconhecimento, por toda a comunidade, das documentações pedagógicas e da educação como um todo. Algo mais que inspirador. Um sonho!


Hoje em dia há uma vasta literatura sobre este tema. Portanto, deixo a seguir, algumas referências:




“Durante todo o projeto, os professores agem como a memória do grupo e discutem com as crianças os resultados da documentação, permitindo que elas revisitem sistematicamente seus próprios sentimentos e os sentimentos dos outros, suas percepções e observações, suas reflexões, e então os reconstruam e reinterpretem de formas mais profundas.” (p. 155)







“Documentar significa acima de tudo deixar vestígios, criar documentos, notas escritas, tabelas de observação, diários e outras formas de narrativas, mas também gravações, fotografias, slides e vídeos que possam tornar visível os processos de aprendizagem das crianças e as formas de construção do conhecimento.” (p. 110)









“Uma das finalidades da documentação é manter a memória do caminho percorrido e do qual, frequentemente, nos esquecemos. Isso nos dá uma ideia da nossa evolução.” (p. 45)










“A documentação não só nos permite dar visibilidade às dinâmicas de aprendizagem individual e de grupo, mas é, ela mesma, um instrumento capaz de promover a aprendizagem individual dentro do grupo, bem como a aprendizagem por parte do grupo no seu conjunto.” (p. 21)





“Documenta-se para conhecer a criança, para vê-la pensar, sentir, aprender. Documenta-se para criar e mostrar outra imagem de criança. Cria-se material de grande autenticidade porque se refere à vivência, à experiência de cada criança e do grupo. Usa-se esse material para projetar a ação educacional, para partilhar com as famílias e com a organização, para monitorar o cotidiano de ensino e a sua relação com as aprendizagens das crianças.” (p. 122)





“Na documentação seguimos pegadas, rastros e pistas que as crianças mostram no seu desejo de conhecer e entender, elementos invisíveis que exigem uma complexidade interpretativa forte. Torná-los visíveis, capturá-los, nos aproxima de uma maior compreensão de seus processos, suas relações, seus símbolos e, por extensão, de uma maior compreensão de como funciona a mente humana.” (p. 79)






“Documentação pedagógica permite a continuidade, ou a consistência, da imagem da criança escolhida, por exemplos, uma que reconhece a riqueza e a singularidade de cada indivíduo. É também um meio de avaliar o movimento e experimentação em um projeto pedagógico dinâmico.” (p. 66)






“A documentação, aspecto tão estudado internacionalmente por ser uma das bases ou um dos pilares do projeto de Reggio, implica para Malaguzzi – em primeiro lugar – a coleta sistemática dos processos educativos. É uma espécie de crédito ou testemunho que dá identidade e densidade cultural à própria escola e àqueles que a habitam. Os documentos são as provas que tornam respeitável o trabalho com as crianças e o dignificam, dando-lhe memória e consistência histórica.”

(p. 206)


“Uma instituição educacional tem a mesma capacidade: ela retém a história dos conhecimentos que foram construídos, alcançados e explorados pelas crianças e pelos adultos que ali passaram um tempo precioso de crescimento e pesquisa. Para ter êxito nessa árdua tarefa dispomos da metodologia de documentação. Metodologia e estratégia prática que concretiza ao deixar vestígios do trabalho educativo e da experiência das crianças.” (p. 49)







“Documentar pressupõe, para nós, assumir a tarefa de observar, de refletir, de interpretar para compartilhar e transformar nossa tarefa diária.” (p. 96)











“Acreditamos em uma documentação do cotidiano como oportunidade de afinar os olhares sobre as crianças, permanecendo com elas e, nesse sentido, em uma ideia de documentação capaz de sustentar a escuta sensível.”

(p. 126)






“A documentação tem sido um elemento fundamental para a nossa evolução. É uma ferramenta que alimenta a nossa pesquisa, nossa atenção e o nosso desejo de descobrir. Observar e documentar as estratégias de compreensão e descoberta, os modos de raciocinar e os processos de aprendizagem do indivíduo e das crianças em grupos pequenos, são aspectos extremamente ricos da aprendizagem.” (p. 160)





“Com certeza, as crianças, como todos nós, precisam ser vistas e reconhecidas na sua individualidade, precisam ser estimadas e, se a observação e a documentação forem muito solidárias, descobrem, identificam, ajudam e sustentam uma relação mais intensa e afetuosa entre criança e professor, e isso distancia os riscos da indiferença, que é um dos piores males de toda relação.”

(p. 240)








“O registro deixa de ser apenas um elemento da memória pedagógica produzida e passa a ser também um poderoso instrumento formativo e político da escola infantil.” (p. 75)









“O conceito pedagógico da Documentação Pedagógica envolve um modo de olhar, de refletir, de fazer, de pensar e de comunicar o cotidiano pedagógico e as aprendizagens das crianças e dos adultos.” (p. 14)

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